Se foi com uma fúria esganada que corri até você, cheio de suores atávicos, de quem vive a volta com a mesmice, por tomar o trem da manhã sem poder voltar dentre as trincheiras de ombros e o clamor dos homens pedindo para entrarmos num vagão de chumbo [ai, Carmela, o posto de gasolina onde nos agarrávamos sem temer os guardas noturnos ou os faróis obscenos, ouvindo sobre os telhados uma rinha de gatos a disputar qualquer fêmea menos ciosa que você], e conduzido pela escada rolante novamente à superfície caminho na contramão da calçada para ver se um sujeito qualquer me derruba e entro de corpo macetado no escritório, com uma desculpa atropelada justificando meu atraso e constrangido, dou um raso bom dia a todos sem olhar seus rostos enquanto na mesa em frente, a riscar formulários – azul amarelo azul amarelo – fichas, recibos, documentos, cartas e papéis escuros de carbono com o empenho estupendo de um soldado da legião de César, um funcionário me estica o sisudo sobrolho qual uma carranca rebocada à tona dum oceano branco de sal (ou folhas sulfites) e atacado por balas de lexotan cobre a boca para desafogar a noite anterior naufragada entre travesseiros de penas, no que me reabilito desses esfalfados olhos com um espirro de mentira, amparando com a mão o nariz de Pinóquio, sendo que, e por isso que, se corri com uma fúria esganada até você certamente vou dissimular esse meu desafogo, fingindo ser da ordem das surpresas, da ordem das visitas relâmpagos, da ordem dos animados happy hours e não de quem vive à volta com a mesmice, a olhar pela janela a praça sacrificada pelo silêncio, quando de pé em frente à cafeteira confessamos a nostalgia que nos dão essas tardes com seus antigos estribilhos de sirenes e a impalpável taxinomia das coisas amorfas e a luz amarela do sol à laia das fotos em sépia onde nossos avós aparecem debaixo do mesmo calor ancestral com que afrouxamos o nó das nossas gravatas e o cinto da barriga, admitindo diante da cafeteira estarmos duros pela conta do almoço, com um ácido apunhalando-nos o estômago pelo pingado sem açúcar, a relembrar os dotes da garçonete que nos confiscou os pratos da sobremesa dizendo se não queremos mais alguma coisa para pôr fim à nossa indisposição, caímos pois com os olhos na praça abandonada que se parece com um túmulo de dinossauro, perguntando quando, e até quando meu Deus?, os homens da companhia de telefone vão meter fios de poste em poste [para que tanta obstinação em falar com quem não vemos mais? Ah, Carmela, se teus irmãos soubessem do clamor daqueles anos de posto de gasolina, do fragor dos nossos dentes, como mentirias hoje e por bem me ligava para fazer-me jurar a eles que é inverdade aquela nossa aderência], mas o chefe bate-nos nas costas um jornal tornado cassetete dizendo: – distraído rapaz? No que eu a mentir [a mentirinha falível de cada dia]: – não, apenas pensando; ouvindo-o gozar conosco: – Se está sem trabalho avise-me que lhe arranjo um bocado, e deixando-nos o livre-arbítrio de voltar à mesa para clicar no mouse os dedos reticentes de pianista disléxico ou a reclusão sanitária [a reclusão sanitária] de sentar na tampa rebaixada dum vaso, encostando a cabeça na divisória para mirar acima dela o céu da janela pela qual imaginamo-nos sair [como uma borboleta que se escapa dum casulo – não de lagarta, mas os mortais casulos que as aranhas tramam] em uma alva cesta de um balão de gás hélio ou um Zeppelin prateado, seguindo ao sul para a modorra da tarde onde passaria a dormir nas cabines de cinema [ah! as sessões vespertinas exibidas no Cine Royal da rua Aurora, e se caminhamos entre as charutarias e os obesos ananás das senhoras que armam nas ancas vendinhas de feira sobre panos de prato e cães moribundos entronados nos mármores das mercearias e as bicas d’água quais os aquários taciturnos das lojas de peixes ornamentais, conseguimos até imaginar que lá dentro um homem pode estar dormindo, recostado nos bancos vermelhos e acolchoados - um seio inusitado no dia maduro -, numa quarta-feira em meio ao turbilhão da cidade em meio ao milhão das coisas do mundo e que poderia dormir com os braços cruzados e as pernas estendidas nos encostos da fileira adiante sentindo as legendas contarem uma história comum a todas as vidas e que se desfaz com as siestas da tarde], passaria a dormir nas salas de cinema, comungando com os banquinhos sentados ao sol, com os cães adormecidos nas lajes, com as roupas desmaiadas nos varais, a exaltada calmaria dos arrebaldes; isso se foi com uma fúria esganada, uma fúria esganada de galo de briga vencido a sentir no pescoço o fio da faca amolada, cheio de suores atávicos de quem vive à volta com o fantasma da própria alma [O que disse Carmela quando me deu o bolo? Que se ressentia da noite mal dormida? Que não podia com o quotidiano de um bronco?], um bronco esperando diante da cafeteira surgir à mente um nome grotesco que possa aspirar para si como um antídoto existencial, no que sussurra – dia de merda, e enfim murmura: – dia de merda, e volta novamente à sua mesa onde afunda aqui e ali um botão do teclado, abre uma pasta azul, fecha-a, refaz relatórios e cochicha no msn letrinhas tristes de novidades falidas, vendo a praça como uma miragem de oásis e ao mesmo tempo tão solitária quanto ele [eu, invariavelmente sou eu esse macho pouco inteligente, mas sensitivo, que capta a sovada o que não aprendeu com teus quadris. Gestos tão elementares que aos afoitos não passam de desagravo. Elementar como o quê?! E então lembro sua mão esticando-me os pêlos como um bicho que constrói seda. Perdoe, Carmela!], flertando no fim do expediente com o relógio da parede mas traindo-o com uma corrida secreta ao relógio de ponto, porque se foi com uma fúria esganada que corri até você, cheio de suores atávicos, vou dissimular esta vida estrangulada e dizer que é da ordem dos acasos pontuais, da ordem dos acidentes prescritos, da surpreendente ordem dos teus seios, Carmela.