Dos rudimentos da verdade

- A experiência é um outro corpo na cama, disse-lhe.  E engoli, ainda gozando do som da minha voz, o pouco que restara no bojo da garrafa. Vi, então, que abrira uma fenda em seus olhos.

- Ah, Deise, estou te enganando.

Claro que, comparado a ela, sou um gorila deitado à relva. Inepto até para o conforme reconhecimento das próprias fezes. Mas, tirando fora meus braços de símio e meu beiço balbuciante, incapaz de proferir qualquer idéia com precisão, sentia-me agora dotado do mais puro lume do espírito. Não apenas isso:  um alarmante senso de praticidade tornava-me capaz de dar forma, investigar as causas (e conseqüências), até sondar o habitual trato amoroso de que se gabaram os poetas de antanho. Claro, eu me apoderava dos espólios dos séculos, sendo, nesse exato momento, o produto final de suas histórias que me anunciaram como criatura desbastada pelas vicissitudes da vida.

(Ela me olha, enquanto eu me regalo com o disfarce do romântico tolhido).

No entanto, quem melhor para falar do pisão que lhe esmagou as tripas do que o próprio inseto espremido contra o asfalto? Eu mesmo questiono qualquer sofrimento que não seja verificável no cerne da carne. A única que dá mostras, confio, sem equívoco algum. A tristeza, quando se mistura com a carne forma uma coisa muito patente, da qual eu gosto. Podia ver nos olhos dela essa melancolia, essa melancia de pele tomando corpo, espichando… espirrando pelas pálpebras. O choro lhe escapando e assim você constata (eu constatei), de modo empírico, a grande Tristeza em si. Sequer o desespero dá provas equivalentes, já que costuma trabalhar para a erradicação do ser humano, extinguindo com isso seus sintomas. Mas não era o caso dela. Arregaçara, de súbido, os beiços para parecer solene. Fundiu à cara uma máscara de titânio cuja anatomia revelava um trágico apelo nuclear. Centralizava ali, no pátio da testa, umas rugas amorosas: os sinais do tempo fátuo.

E hoje? O que faremos se se soma ao enorme desconforto (dela), sua desejável impressão de empatia (apenas impressão. Ela se recupera, mas não ressuscita). Esses seus sorrisos sem espírito (os reputo eu à fabril cartilha da educação). Como fará com suas antepassadas, essa mulher? Como lhes pagará a dívida de tantas gerações dedicadas a elevá-la à condição de “realizada”? Elas, que lhe nutriram o corpo com um suor grosso feito leite. Vai esquecê-las? Pode, acaso, se ajoelhar e me dizer: – Me beija? Vai tomar meu membro e dissecá-lo? Ousa tomar meu membro sem a toga passional do sexo? Sem o furor, o que fará ela? Provavelmente, se vê encurralada entre a memória e o ardume. Ela deve guinchar, penso, a qualquer instante. Mas a boca se estica, afunila, esboça uma orquídea e então ouço uma voz que não é sua. Fraca, demente e ainda assim dulcíssima. Ela canta? Esqueceste mesmo os gônios que te pariram, que te forniram, que te suplicaram?! Deixando, ainda assim, e contudo, minha boca seca e avulsa, meu ente solto e mole… Canta?

– Como ousa, tu? Espinhuda! E quase lhe esmurro. – Como é que se regozija, tu, demônio?!

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Do sentido das pipas

A Diego Fracari, caro amigo.

Sendo de praxe padecermos, a despeito de todos os esforços, pelo jugo da Natureza; desde o fogo que alumiou a idéia de Nero, ao horror sísmico que trepa pelas pontes  trêmulas ou o aguaceiro que recorda a falta de um Noé em Atlântida, sou crédulo e, por constantemente me fiar na ironia (como quem crê numa  divindade satírica e vingativa), dou fé de que se estes tempos modernos vierem a conhecer o fim do mundo, será pelo trabalho do vento. Algoz ideal para um doente de efemeridades crônicas, capaz de desaparecer sem deixar nenhum indício: Houdini que na cartola faz sumir a enorme besta.

Habituo-me a pensar em sua vinda. Deve surgir como uma brisa a guihotinar chapéus e fazer suicidar-se os  papéis da escrivaninha. Contudo, e deixando de argumentar com as cortinas da sala, de debater com os lençóis da cama em fulgurações de fantasmas, ouviremos o tom languoroso de suas vaias assumir o afiado timbre metálico familiar às cornetas e às adagas. Virá, então, cortante. Rasgando nossas roupas, escalpelando nossas casas, serrando o chão pela raíz. E assoviando pelas chaminés das fábricas, pelos dutos do esgoto e pelos túneis, ele transformará todo o concreto em nuvem e todo o aço em ave de arribação. Cessando, entretanto, num átimo, qual um sonâmbulo desperta de si. Ele levará nossos nomes.

Acredito, contudo, que momentos antes do fim, para livrar-nos da demência de João ou para salvar-nos da obsolescência do espírito, tentaremos explicar o ocaso:

Se dirá “O vento vem das montanhas”, mas atestarão os alpinistas “Ali o ar mal existe”.

Se dirá “O vento vem do pólos”, mas as bússolas não os encontrarão.

Se dirá também “Trata-se de um furacão impetuoso”, mas ninguém achará seu olho.

E se dirá “É o sopro furioso de Deus”, mas do céu cairão cometas como fósseis de anjos. E nada mais fará sentido.

Enquanto a mim, acostumado a me desesperar, o que farei? Escrevo (a fim de lembrar-me quando for hora): “Pedir a um pássaro que me carregue”. Porém hesito. Não poderei realmente fazê-lo, entendo. Isso destruiria o propósito de todas as pipas que um dia tive e que, ironia, o vento carregou sem mim.

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Do exílio

Quando eles colocaram os sapatos, uma luz caiu sobre mim como fogo. Foi o que entendi: nenhum deles voltaria, ou voltariam uma só vez. E se penso neles, é só para lembrar da cor do céu naquela tarde em que sumiram. Meu pai os abraçou, já na fronteira da saudade. Acharam esquisito ele não ter imposto a palavra. [- Seu pai estava louco, filho.] Eles foram por aquela planície, montados sobre as próprias sombras. Então fiquei só e pela primeira vez a noite encheu meu quarto. Nessa noite adoeci dum sonho postiço, imaginando a viagem deles dentro da escuridão. Com os olhos moucos para poder melhor encontrar o silêncio dos seus passos. Contudo, mal o sol raiava, mal o lume varava-me as pálpebras, suas pegadas desapareciam pelo caminho. Aos poucos, meus irmãos haviam tornado-se fantasmas. A claridade do dia os tinha afastado. Levado-os para um distante sítio no mundo e me paralizado nesta casa morta. Com um desespero de quem acorda sem sentir as mesmas pernas, despertei com a boca ruidosa de um dinossauro. E por fim lembrei-me de tê-los visto afundar, com seus corpos diáfanos, no horizonte ainda anoitecido. [ - Pobre de mim!] Eu buscava seus vultos nessa manhã solar, enquanto a luz encontrava-me assombrado e sozinho sobre a terra.

Então percebi que eles tinham feito mesmo um caminho secreto na vastidão. E que o tempo apagaria suas pegadas desta casa. Dei, por isso, seus nomes aos animais. Assim não me esquece a memória, e mantenho o costume de chamá-los. Porque faz tempo desde que foram. O pai fala: eles fugiram. Se fugiram, eu digo, não foi de ti, pai. Não sei, ele diz, e arrota, para disfarçar a mágoa que tem. Para nos livrar da solenidade da ausência. Eu fungo o nariz, quando posso. E as vezes sigo fungando até o estábulo, onde os cavalos, os bois e os porcos fazem o mesmo. Assim eles desaparecem. E eu digo: vou esquecer o que sou.

Semana anterior fui à Rua do Encouraçado e me falaram deles. Disseram que já teriam voltado se fossem voltar. Falaram deles como se desencarnados. – Eles estão em algum lugar, eu disse. E disse também sobre a coragem de partirem sem destino. Mas eles me embatucaram, mofando meu coração com um Silêncio. Retorqui: – Posso buscá-los. Pensei: E mostrar que guardam o cordão do umbigo.  Mas um velho pesou a mão em meu ombro: – Nao sinta pena do seu pai. Depois disse: – Seu pai tem a ti. À noitinha voltei ao estábulo onde os animais fungavam.

Lembro o que o pai lhes falou: “Não voltem aqui como estranhos. Nenhum de vocês”. E deu a mão para apertar, em sinal de confiança. Mas o mais velho, antes de sair, por fim: “Descansa, pai. Nunca esqueci do senhor”. Partindo sem remédio outro senão a memória que guardava de nós. E enquanto meu pai adoecia, eles supunham : “Foi a vergonha”. Lembro deles deixando a fronteira, caminhando o bastante para virar atrás só lá longe, onde não se distinguia mais a gente, nem as casas, nem o passado.

Uma madrugada deixei a todos e corri. Corri até me desterrar da barriga do mundo. Passaram-se os meses e eu só caminhava e pensava no pai: praticamente sozinho. Caminhava e o pai: de olhos arregalados, furando o sono.  Caminhava e pensava se ele se ajoelhava perto dos porcos e os escutava. Ou se lhes varava o lombo com um facalhão, cheio de náusea. Ou se arrotava, solenemente, sem nunca ter sentido lhe afinar a voz.

Todos se aproximam de nós. Se aproximam de mim, dizendo: você os achou. – Agora descanse, digo a meu pai. Ele sorri de um enigma, no infinito da parede branca. Procurou minha mão. Todas as mãos que encontrou. E as costurou pelos dedos para que elas o esquentassem. Quando morreu eu não estava olhando. Apenas ouvi um estalido e o mais velho estalou mais alto, com a boca aberta feito um balde. “O pai partiu”, eu disse. Um deles cobriu aquele olhar dele, enterrando para sempre a cor dos seus olhos. Os outros saíram. Foram avisar as pessoas que eu também iria. Eles vieram se despedir. Olhavam meu pai e me abraçavam. Lamentavam comigo minha partida. Mas eu amava meus irmãos. Eu os admirava. Eles se libertaram do estábulo, e do fungar constante daqueles animais, antes mesmo de eu saber que até mesmo um bicho chora.

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Do meu inimigo

Então passei ao lado daquele que era meu inimigo, e que me mataria ao sol nascente. Tinha as mãos como velhas canoas; que entenderam o que haviam entendido as mãos do seu pai anos antes. Do pai trabalhador no porto e que lhe disse um dia ouve filho, percebe na oscilação do mar? É a voz outonal ecoando no inverno, é o gigante barbarizador, é o refugo dos cardumes da superfície; você sabe o que é essa coisa? O nome dela é sagrado. Mas eu vou contar e você a verá passar ofuscante pelos seus olhos: o nome dela é Vingança. Ouve o apelo de suas vaias antigas? Furam nossa boca como um anzol.

Tudo isso aquelas mãos sabiam, pelo trato do espigão e da benzedeira. Pelas ondas arremessadas contra o barco, pela descama do peixe na feira, pela traição declarada nos meus olhos de tainha. Está chegando o momento em que o peixeiro me reconhecerá. Vendo em mim os cansados pescadores que afogaram seu pai, vai perguntar o que perturbou o barco e fez a fuga. Por que deixamos um homem à morte indecente no mar? Encontramos mesmo a baleia comedora de gente ou foi a covardia abundar na rede? Pus sobre aquele barco uma lona preta que não ouso tirar. E ainda que eu esteja firme, ele saberá. Seu olhar vai flutuar no grosso óleo das minhas pupilas e deslizando a mão sobre meu peito, como alguém que acaricia o peixe colossal nunca fisgado, a lâmina pra fora do lenço, ele me matará.

Como pude crer que só eu via a fuga do Sol naquela manhã de Dezembro?

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Do incomunicável

É por abanarmos nossas mãos no ar, é por acenarmos aos outros com fervor suplicante, e é por ficarem assim, nossas mãos, ao sabor do vento, que o fogo brando que as aquecia incendiou nosso corpo.

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Dos pequenos males

Temo os pequenos males, tão cheios de si. Passam as luas limando um terror maior. Pela matina já dominaram a casa. Como o pó que brota da inércia. Então vão ao encalço das coisas miúdas e grassam nas existências menores. Tenho medo dessa estocada de agulha. Da sangria imposta àquilo que é ínfimo. O que ninguém vela pois sempre foi frio. E não invocam pois não teve nome. Já são suas tumbas os que cumprem apenas uma forma bruta. E dessa forma abruptamente se despiram.

Sobre a pia, resta a mancha do café vespertino. As formigas acodem: embriagadas pelo teor refinado do açúcar. Aglutinam-se, umas sobre as outras, presas àquela natureza incorpórea. Topando repetidamente consigo mesmas, apenas uma morre esmagada, as outras ainda persistem. Engolem o ar, então, como se o bebessem. Cegas pressentindo uma chance alegre de fartarem-se. Porém, não desnudam sequer um único grão. Há somente uma sombra preta e impalpável, como a marca de um fantasma que desapareceu sob uma bomba. E tudo mais cessou.

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Do retorno à casa de infância

Não há destino  mais trágico do que morrer tentando alcançar a casa onde crescemos. Muitas vezes, no caminho de volta, a lentidão com que as fronteiras chegam, o olhar lasseado pelas distâncias (sem fixar-se em coisa alguma, caindo diversas vezes no couro dos sapatos, pousando em alienígenas ruas), o entorpecimento causado pela longa caminhada, a inaptidão ao exílio e a idéia absoluta do retorno como a única forma de absolvição (por uma vida diluída e defendida sem orgulho), dão a nós uma sinistra ânsia de morrer à caminho ou, senão, no passo seguinte ao capacho da porta: na remota direção do sofá.

Como se isso (esse corpo estirado sobre o tapete - ainda ofegante e quente e, ao que parece, muito grande) pudesse nos canonizar a vida e impedir que novamente a dissipemos no bojo de nosso próprio ninho: maculando, com nossas costumeiras vergonhas, as coisas familiares e queridas.

Morrer à caminho da casa onde crescemos, ou no passo seguinte ao capacho da porta: na remota direção do espelho, garantiria o repouso tão necessário ao espírito. Lá chegando, nos reergueríamos (seriam segundos), dignos e nem tanto indigentes; soberbos, apesar dos magros gestos de fé; dizendo a nós mesmos ser infantil acreditar na possibilidade de retornar à infância, mas tombando magistralmente trágicos como um colosso tombava em Rodes. Lá nosso espirito poderia viver para sempre redimido das idéias vulgares, das ações encolhidas, das palavras cochichadas sem doçura. Na casa de infância, se enfim chegássemos, seríamos talvez perfeitamente capazes de um novo destino (grande e certamente nobre); e que, graças à sorte, morrerá conosco.

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Do primeiro aprendizado

Quero que você me enterre. A teus pés. Estou disposto a te dar meu rosto e desposar o silêncio. Estou pronto a atravessar esta ponte sobre o abismo. E emudecer se preciso até a menarca da tua voz. O som pungente que coalha na tristeza. O pio que se dá no frio. Não tenho medo das formas esquivas que o amor assume. Sou predileto entre os pacientes. Guardo no bolso uma noz para quebrar na vigia do teu sono. E uma profunda reverência no teu despertar. Mas quero que você me enterre. É só o que te peço, mulher. Que me largue da vida aos teus pés. Que sempre foi, desde o começo, a órbita do meu corpo. O comprimento de todas as coisas que mensurei. Tenho olhos ligeiros para teus gestos e densas pálpebras para os mistérios. Sei guardar segredos e fazer dos erros parábolas. Posso desprezar os automóveis, os edifícios e os curiosos, esperando apenas pela tua chegada. Cultivo uma angústia para tuas ausências. Dou núpcias às minhas mãos quando encontram as suas. Posso aprender a ler as palmas e desmentir os horóscopos. Tenho fé no seu toque. No desenho que fez no espelho depois do banho. No nó que desatou e deu um laço. Sei tirar dos domingos as ganas da segunda. Levar as samambaias para a varanda e pôr tua rede. Sou dadivoso em tua preguiça, debutando quaresmas em teus bocejos. Ficar à sombra com um livro antigo e recuperar o sonho que esqueceste. Mas só se for você a guia. A deitar meu corpo na terra das folhas e plantar em meus olhos duas moedas, para que eu tome o escuro barco do rio. Pois mulher, tudo deve começar e terminar em teus pés.

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Das prostitutas

Ao deixar a cidade, com suas luzes insones e as folhas de jornais amanhecidas na praça, e o timbre agudo do leiteiro apitando antes do sono desnatar os olhos, e os farrapos que ansiavam à porta da padaria o pão, o melado e o rubi, peguei a estrada da colina para alcançar, ao fim de meia hora à passo lento, o cume interposto entre a cidade e o horizonte. Sou, agora, uma exilada. Pouco conhecida nas terras circundantes, porém ávida por chegar até elas. Minha mala (deixe-me apresentá-la) trago espicaçada por espelhos e pentes, entuchada de vestidos muito lindos, tintas e batons de Deus me acuda, véus e meias macias feito um bumbum de criança. Aqui me detenho com ela. Aqui penso aonde levarei minha preciosa desonra e estas tosadas virilhas de ovelha tresmalhada.  Ansiosa pela noite inaugural, quando darei núpcias àqueles que  se apresentarem à minha alcova com o bico e o hábito teso do galo forniqueiro. Um após um, outro após este, tomam minha aliança nos dedos. Digo a eles que os amo a todos, entredentes, com fúria. Eles também me amam, e me dão os beiços e me acariciam suavemente qual o comprido lombo de um cavalo e apagam seus cigarros na pia da cozinha. Somos, então, domésticos e felizes. Até novamente a aurora maciça de suas esposas.

Eu as conheço tão bem, que seus egos calejados, suas bocetas como tumbas, seus filhos à tiracolo, me entediam. Vindo juntas, recrutarão aqui e ali suas concidadãs. Vão clamar por mim, apertando as saias entre as pernas, gritando os meus nomes, chamando-me com um amor de irmã. Cada palavra fumegando boca afora na manhã fria. E ainda despenteadas pela noite de dúvida e de medo, forçarão os caixilhos da janela, carimbando o vidro com seus narizes, a espiar lá dentro quem as sucedia. Sobre esta colina eu me prostro e escolho o caminho como uma bruxa que despencasse da lua. Não haveria de ser de outro modo. Nós, forças da natureza tão pródiga, cheias de amor e de vísceras.

 

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Das luzes perdidas ou Dos pequenos males

Há, entre os do mundo, um tipo de homem que vaga; um tipo para nós estranho, que erra por terras alhures. Compelido pelo cansaço e pela fome, as vezes pela solidão, ele geralmente vem em busca de uma cama que o descanse e de alguma hospitalidade. Parece nada saber de um lar, porém as coisas desconhecidas se tornam habituais e, aos poucos, todas as portas lhe são familiares. Creio que isso ocorra, pois nenhum homem passa impune ao exílio e mesmo as fronteiras do nosso quintal nos são caras.

O que o faz persistir na estrada? Julgamos, talvez, este tipo, o fugitivo comum de um passado remoto, que lhe segue as pegadas e o atormenta o sono. Ou, então, quem busca a visão mágica dos mouros dervixes. Um campo de girassóis. O cume de um Everest. Com certeza seus passos o distraem e, aqui e ali, ele se satisfaz com a sorte de um atalho, com uma furtiva água de pedras ou a confiança em veredas futuras. O quanto se alegra com isso, nós o ignoramos. Os peregrinos dificilmente falam de si, eles sabem que não compartilhamos das mesmas veleidades. Seu contento e mágoa são infinitamente particulares, mormente os temores de sua vida.

Secretos males afligem esse tipo que vaga. Durante a jornada, a terra fofa, o vento contrário, a garoa sempiterna, põem à prova a convicção do viajante. Às vezes, imagino-o a caminho de casa, quando a noite o alcança no campo ermo. Deitei-me cedo e já durmo, sem pressentir que se aproximava. Pobre homem, à distância toda essa madeira, as cercas e as janelas são invisíveis, negras como carvão. Apenas a lâmpada incandescente em minha varanda resiste: ele a avista. Em meio ao breu, seus olhos observam por instantes essa luzinha sinalizando, se liquefazendo na imensidão inconsútil. Seu envelhecido lume o encoraja; traz consigo, entretanto, uma angústia amarela que o ascedia. Tal sentimento na verdade é sem nome, e só grassa nos espaços vazios, inexistentes na cidade. Seus pensamentos então voam através do vale e vão encontrar-se no conforto de um teto que, não sabe ao certo, o aguarda. Ele teme o negrume que ronda essas lâmpadas sozinhas. Quer dar marcha aos pés, mas aquela pequenina luz vacila e, subitamente, apaga.

Esse tipo de homem lamenta as luzes encapuzadas pelo grosso pano da noite. Para ele não há melhor consolo do que sua própria caminhada. Digo, porém, aquele que vinha, quem sabe um dia, à minha casa: a luzinha que lhe roubou a escuridão, eu também. Eu também a lamento.

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Do muro

- Dez dias, Senhor, dez dias a pé e agora isto – pensou o homem.

Feito de pedras, alto e extenso como um rio, o muro parecia represar tudo o que havia no mundo. O homem pôs sua mochila no chão e olhou-o friamente. Atrás dele ficava seu vilarejo.

- Era aqui que o sol se punha. Então era esta a distante linha do meu horizonte.

O homem decepcionado esfregou os olhos. Caminhou na direção do vento, rente às pedras. O vento e ele procuravam uma fresta por onde entrar e tateavam a muralha. Depois o homem virou-se e caminhou para o outro lado, com os dedos relando o calcário e o duro. Insólito: milhares de quilómetros sem passagem.

- Tive longos dias de alegria, pensou ele, neste caminho pra casa.

Detrás do muro saíram vozes de crianças e um rumor d’água jorrando na mangueira. Ajeitou o chapéu, sentindo que estas coisas eram seus familiares. Lembrou-se do potro que deixara sem nome, da tina onde banhava-se, da blusa suja de farinha da mulher e do catavento adejando no telhado. O homem irritou-se.

- Maldito canto do mundo.

Olhando ao redor,  percebeu então que lá não haviam árvores, que as longas raízes do muro teriam secado o chão. Também viu que ali os pássaros não voavam, pois o céu ficara estreito. Mesmo a grama não crescia ao pé do muro, e sequer havia formigas marchando nas trincheiras de pedra. Adiante, um texugo morto, com a pança estufada virada pra cima, tinha o apecto do primeiro mártir. A boca cava remontava uma bilha, ou um gemidinho. E intacto, a terra não o comia, e o homem olhava a terra, que parecia magra sem o horizonte.

- Inútil atalho, suspirou. Minha rede esperará por mim mais um pouco.

Antes de partir, no entanto, pegou um tijolo do chão e o esboroou no muro. Passados dez minutos, contemplou longamente o que fez. Guardou o tijolo na mochila e dando as costas à muralha, começou a caminhar ao Oeste. Levaria agora mais alguns anos até chegar a sua casa. Atrás de si, na fronte instransponível das pedras desenhara árvores, grama, formigas e o texugo -  na boca dele uma espiga de milho.  Ria-se, por fim satisfeito, enquanto caminhava pelo outro lado.

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Do sono

Ao me deitar, as vezes penso nas penas de meu travesseiro e que elas faziam voar esses animais que não amam o homem. Mas minha cabeça, geralmente pesada, não encontra o céu noturno mesmo sobre um vão de plumas, nem meus pensamentos se transformam no pássaro esbelto. A metamorfose do sono é lenta, e eles não chegam a deixar meu quarto.

Resta encolher-me como as aves no frio. Em sonho elas não voam pois também estão cansadas. Eu sou elas. Escondo-me debaixo do travesseiro, como quem põe a cabeça sob uma asa, e assim como elas dormem, eu durmo.

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Das fúrias

Se foi com uma fúria esganada que corri até você, cheio de suores atávicos, de quem vive a volta com a mesmice, por tomar o trem da manhã sem poder voltar dentre as trincheiras de ombros e o clamor dos homens pedindo para entrarmos num vagão de chumbo [ai, Carmela, o posto de gasolina onde nos agarrávamos sem temer os guardas noturnos ou os faróis obscenos, ouvindo sobre os telhados uma rinha de gatos a disputar qualquer fêmea menos ciosa que você], e conduzido pela escada rolante novamente à superfície caminho na contramão da calçada para ver se um sujeito qualquer me derruba e entro de corpo macetado no escritório, com uma desculpa atropelada justificando meu atraso e constrangido, dou um raso bom dia a todos sem olhar seus rostos enquanto na mesa em frente, a riscar formulários – azul amarelo azul amarelo – fichas, recibos, documentos, cartas e papéis escuros de carbono com o empenho estupendo de um soldado da legião de César, um funcionário me estica o sisudo sobrolho qual uma carranca rebocada à tona dum oceano branco de sal (ou folhas sulfites) e atacado por balas de lexotan cobre a boca para desafogar a noite anterior naufragada entre travesseiros de penas, no que me reabilito desses esfalfados olhos com um espirro de mentira, amparando com a mão o nariz de Pinóquio, sendo que, e por isso que, se corri com uma fúria esganada até você certamente vou dissimular esse meu desafogo, fingindo ser da ordem das surpresas, da ordem das visitas relâmpagos, da ordem dos animados happy hours e não de quem vive à volta com a mesmice, a olhar pela janela a praça sacrificada pelo silêncio, quando de pé em frente à cafeteira confessamos a nostalgia que nos dão essas tardes com seus antigos estribilhos de sirenes e a impalpável taxinomia das coisas amorfas e a luz amarela do sol à laia das fotos em sépia onde nossos avós aparecem debaixo do mesmo calor ancestral com que afrouxamos o nó das nossas gravatas e o cinto da barriga, admitindo diante da cafeteira estarmos duros pela conta do almoço, com um ácido apunhalando-nos o estômago pelo pingado sem açúcar, a relembrar os dotes da garçonete que nos confiscou os pratos da sobremesa dizendo se não queremos mais alguma coisa para pôr fim à nossa indisposição, caímos pois com os olhos na praça abandonada que se parece com um túmulo de dinossauro, perguntando quando, e até quando meu Deus?, os homens da companhia de telefone vão meter fios de poste em poste [para que tanta obstinação em falar com quem não vemos mais? Ah, Carmela, se teus irmãos soubessem do clamor daqueles anos de posto de gasolina, do fragor dos nossos dentes, como mentirias hoje e por bem me ligava para fazer-me jurar a eles que é inverdade aquela nossa aderência], mas o chefe bate-nos nas costas um jornal tornado cassetete dizendo: – distraído rapaz? No que eu a mentir [a mentirinha falível de cada dia]: – não, apenas pensando; ouvindo-o gozar conosco: – Se está sem trabalho avise-me que lhe arranjo um bocado, e deixando-nos o livre-arbítrio de voltar à mesa para clicar no mouse os dedos reticentes de pianista disléxico ou a reclusão sanitária [a reclusão sanitária] de sentar na tampa rebaixada dum vaso, encostando a cabeça na divisória para mirar acima dela o céu da janela pela qual imaginamo-nos sair [como uma borboleta que se escapa dum casulo – não de lagarta, mas os mortais casulos que as aranhas tramam] em uma alva cesta de um balão de gás hélio ou um Zeppelin prateado, seguindo ao sul para a modorra da tarde onde passaria a dormir nas cabines de cinema [ah! as sessões vespertinas exibidas no Cine Royal da rua Aurora, e se caminhamos entre as charutarias e os obesos ananás das senhoras que armam nas ancas vendinhas de feira sobre panos de prato e cães moribundos entronados nos mármores das mercearias e as bicas d’água quais os aquários taciturnos das lojas de peixes ornamentais, conseguimos até imaginar que lá dentro um homem pode estar dormindo, recostado nos bancos vermelhos e acolchoados - um seio inusitado no dia maduro -, numa quarta-feira em meio ao turbilhão da cidade em meio ao milhão das coisas do mundo e que poderia dormir com os braços cruzados e as pernas estendidas nos encostos da fileira adiante sentindo as legendas contarem uma história comum a todas as vidas e que se desfaz com as siestas da tarde], passaria a dormir nas salas de cinema, comungando com os banquinhos sentados ao sol, com os cães adormecidos nas lajes, com as roupas desmaiadas nos varais, a exaltada calmaria dos arrebaldes; isso se foi com uma fúria esganada, uma fúria esganada de galo de briga vencido a sentir no pescoço o fio da faca amolada, cheio de suores atávicos de quem vive à volta com o fantasma da própria alma [O que disse Carmela quando me deu o bolo? Que se ressentia da noite mal dormida? Que não podia com o quotidiano de um bronco?], um bronco esperando diante da cafeteira surgir à mente um nome grotesco que possa aspirar para si como um antídoto existencial, no que sussurra – dia de merda, e enfim murmura: – dia de merda, e volta novamente à sua mesa onde afunda aqui e ali um botão do teclado, abre uma pasta azul, fecha-a, refaz relatórios e cochicha no msn letrinhas tristes de novidades falidas, vendo a praça como uma miragem de oásis e ao mesmo tempo tão solitária quanto ele [eu, invariavelmente sou eu esse macho pouco inteligente, mas sensitivo, que capta a sovada o que não aprendeu com teus quadris. Gestos tão elementares que aos afoitos não passam de desagravo. Elementar como o quê?! E então lembro sua mão esticando-me os pêlos como um bicho que constrói seda. Perdoe, Carmela!], flertando no fim do expediente com o relógio da parede mas traindo-o com uma corrida secreta ao relógio de ponto, porque se foi com uma fúria esganada que corri até você, cheio de suores atávicos, vou dissimular esta vida estrangulada e dizer que é da ordem dos acasos pontuais, da ordem dos acidentes prescritos, da surpreendente ordem dos teus seios, Carmela.

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Dos tempos em que beijo na boca era pra valer

Duas meninas passam correndo como nunca. Estão gritando um bocado e sobem pela calçada aos berros. Cruzam a praça. Caem na banca. Rasgam chicletes e pedem pilhas. Adiante chego ao colégio de onde saíram. Está cheio de outros rebuliços. Entre meninas e meninos, casais se escoram no muro. E beijam muito. Como se alguém tivesse dito há pouco que isso não dura. São as férias do Colégio Estadual João Borges. Quis parar e ficar esticado debaixo do toldo. Quando as línguas estalam ficam parecendo duas rãs. Rãs saltando no brejo da boca. Pensei, sem tréguas, no dia em que beijei a menina mais esperta do bairro. Foi uma pele que saía de outra. Foi como seu eu fosse um bicho e quisesse correr pelas ruas até o mangue. E lá virar um caranguejo e morar entranhado. No absoluto assombro do barro. Na força lodosa da saudade. Onde no fundo nada se acelera mais do que se cansa. E só as coisas arrastadas vivem. Eu arrasto aquele dia. É um cacto. É a Muralha da China. É um patíbulo no pontal daqueles joelhos. Que se enfurnaram no meu jeans e limaram o meu sexo. Regressar à dona desses joelhos ou pelos prodígios desses ganchos de crustáceo a trazer aqui, para que conheça o sal que cristalizou meu couro. Para dividir um pedaço dessa carne amalgamada. Nela viveríamos sob a dura carapaça. Nela riríamos das enxurradas e do fim do ozônio. Alheios a todo espanto do mundo. Com estas patas que só aos lados acodem, para não poder fugir disso. A menina que tinha os cabelos dum castanho sisudo. Do castanho escuro que dá nos buracos mais fundos. Da cor da terra molhada. Do castanho que sustenta o prelúdio do breu. Fiquei preso nisso. Sem saber dos garotos fora da escola. Eles chamam as meninas do colégio. Dão a elas um papelzinho. Dizem: é do Quinzinho! Uma só abre e lê. A outra ri esquisitinho. Pega a pepsi-cola. Manda chamar. Manda chamar o Quinzinho. Os meninos correndo na direção do pátio. Alguém diz que vão tropeçar e cair. Quinzinho vem vindo com um doce de abóbora. O fuxico e a firula se lixam nos dedos. Quinzinho não fala nada, nem dois “as”. Morde o doce. Pega na mão dela de um jeito pomposo, como se fosse um sorvete de pistache, e beija. O pessoal grita vários “aês” e “uis”. Entorno é uma aclamação. Atrás das árvores meninas mais tímidas que não podiam olhar. Quinzinho nem se move. Agüenta o rosto vermelho dela entre as mãos. Está quente. Mas ele fica lá, beijando. Quinzinho é o cara. Não olha para trás. Talvez depois de tantos anos eu devesse, enfim, fazer o mesmo.

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Dos que não voltam a dançar ou Dos pingüins

Eu que não ia te tirar para dançar, sussurrava: Do you wanna dance? ela acompanhando meu passo de pingüin ou joão bobo, joão bobo. Mas um beicinho de pingüin amoroso, no que me bloqueou a mão na roupa a me cacetar as tripas dizendo - te daria um beijo se me acalmasse mas te beijar não me acalma Eu no cenho mais profundo imitando uma siesta invernal um bocejo de homem que desperta de tempos glaciais eu me preparava balançando o pescoço entre dançar e dar por surpreendido Teu rosto inconsútil Tua cara fardada e imóvel Teu beiço malhado e negro

me preparava num passo de joão bobo (- do you wanna dance? do you? don’t?) me passando por joão sem braço: - Quem não se atrapalha hoje não há quem não se atrapalhe não há quem não se engane num passo ou outro… Tua cara fardada a devolver-me velhas medalhas: - Já fomos melhores… sem aceitar seguir-me. A me cacetar as tripas. Um bloco de gelo, um ritual militar ou pré-histórico, a macetar-me com um granizo: essa coisa meio pedra meio pássaro meio cometa. - Estou nervosa por ter de… - não se preocupe, ninguém está calmo a ponto de… (teu beiço negro e malhado) - … me despedir

Cacetando – sinto que me liqüidava algumas partes do corpo sem chances de ressurreição – os tendões da canela, raspando-me as omoplatas, afogando-me num ácido lático que me impediu de dobrar os joelhos (tu que dançava quem diria tu: meu capataz) abri um sorriso sanfonado como um biombo atrás do qual minha língua se encolhia nua e envergonhada. E teu negro beiço: - Não estou brincando

sem dobrar os joelhos como esses pinguins de geladeira agüentando firme o tranco do Eu te abraçava Do you wanna dance? no que você: - me solta um pouco (eu que não ia te tirar para dançar, que nem conduzir sei direito, de repente o que me deu? foi minha tia a dizer na memória: a mulher se entrega na dança) Abrindo minhas mãos numa cerimônia maluca de homem neolítico me investigando as palmas cotocas de pássaro que não voa a raspar nelas o indicador (como um soldado rela o gatilho) e me fuzilando – sem que me preparasse, eu que nem ia… – com um anel prateado no meio dos dedos: - estou devolvendo

Disparando-me seus olhos meio pedras meio passáros meio cometas, atirando meu corpo desengonçado de joão bobos na vala comum dos joãos-sem-nome abandonados

no meio da pista

a me despedir sem braços: - não se preocupe, estou calmo a ponto de… Teu rosto inconsútil teu beiço malhado devolvendo-me antigas medalhas: - era a nossa música

e eu agüentando firme o tranco do O mundo era você e eu mas tu: - me desculpe (quem diria tu, meu capataz, de olhos azuis?! evaporando como gelo seco no meio da pista) saindo-se por uma trincheira de mesas com o refrão a fechar minha garganta e os joelhos imóveis – sem dobrar – marcando o ritmo do meu silêncio a seco: - … fico bem

Entorno casais rodopiavam movimentos pré-históricos de pouco gelo para muita cuba-libre (nunca pensei que nessa dança…) se me calava como um pingüin de geladeira se tinha um cenho invernal de sono profundo se um animal glacial me encarnava (e outro sargento: - quer dançar?) me envergonho. Vendo-a quase sair por uma fresta do salão virando-se mais uma vez sem me achar – eu a me despedir como um joão-sem-braço como me envergonho! – entre os vultos dançarinos sem atinar no outro sargento: - dança comigo! e sumindo dura reta com o corpete-a-prova-de-balas enquanto apontavam-me aqui um fuzil de brinquedo: - do you wanna dance or not?

calava e apertava no bolso um arrependimento meio pedra meio pássaro meio estilhaço a rasgar-me as tripas (tu com essa íris de prata, tu meu capataz, quem diria tu: esse anel) a me causar remorsos de ave que não voa, ferrando-me no tranco do Um sonho a mais não faz mal, afrouxando meus joelhos a nem saber se os tinha, mudando-me o bico em boca (a boca mais humana do mundo) de João ou Jó ou Zé, tanto faz: - desculpe eu não danço

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Dos ocasos

Tentei pegar o telefone e ligar mas a chance se escondeu. Onde deve estar o seu ouvido agora? Num rockzinho de bar, nas penas silenciosas do travesseiro, em meio aos seus cabelos, já vejo… Ao chegar essa hora, enquanto não falo contigo me sinto endividado, parece que no piano da sala havia uma carta sua – com o viço que têm os bilhetes anônimos, mas esta era sua, era a sua letra… parecia, não era real, convenhamos que não existiu… ora… – escrito: “me ligue assim que possível, te amo, beijos”. Ok, está meio borrado, não é tão certo ser isso mas do que importa: toda carta sobre um piano traz uma mensagem sucinta e urgente, seja qual for. E depois, mais embaixo vinha – não sei se li mesmo, acho, talvez sim, ora… por que não? – “isso vive se repetindo você verá”.

Então a emergência, os movimentos seminais e rápidos contra as provações que me chegavam e para cada uma, um gesto de contato (onde, como, com o que?). Tentativas e tensões que passaram, restando este recado. – tempo, pausa – e agora entendo a notação debaixo do bilhete existencial, meio papel meio trauma psíquico, vejo o círculo retomando e retomando sua centralidade, seu meio, seu furo por onde passa a linha e quase fecha: quase.

Se repetindo mais uma vez numa destas mensagens corretivas – a furtiva culpa do meu off, do under, da indivísível queixa que me darias – novamente este placebo de ecrãs, redigindo redigindo, tentando recriar o som composto de tantos meios tons senhas e suítes: “alô, oi querida…” e no entanto tudo que temos é essa retardatária mensagem à sua carta. Salvo que fito um papel qualquer, (digo: qualquer, talvez um guardanapo) inclino-me a crer que é neste em que me deixou seu recado. Deixo-o solto. Suas letras – suas! o seu R, o seu A – ficam suspendidas num fundo remoto… (“alô. Ah… ainda bem que o leu”). Não desejo me desvencilhar desta mensagem inaudita, pouco me certifico, porque muito muito pouco é capturado pelos olhos.

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Do silêncio

Somos a demente manada que Deus enviou ao mundo e gastamos nossas vidas a pascer a terra erodida em silêncio. Aqui baixamos nossas imensas cabeças, fungando pelos orifícios o sabor da grama verde. E em nosso desespero carregamos todos grandes cornos que nos apartam as frontes, sendo impossível compartilharmos da mesma pastagem. Então ruminamos sozinhos nossos pensamentos, tentanto, dessas bocarras, descobrir a possível forma de nossas línguas, desejosos por revelar a palavra que nos auscultava. Mas o segredo foi abatido. Berramos apenas uma rouquidão nascida da vigília e do assombro, separados que estamos uns dos outros, sem compreender essa existência orgânica, tão potente de som e carne. Somos uma demente espécie, de boca escancarada e dura, babando em todos os confins da terra.

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Da perda

As vezes o que se pode fazer por um homem em uma noite, não se pode fazer por ele a vida inteira. Ele morre se tentarmos amanhã. Se amanhã for um domingo ou um dia de feira. Sua chance está dentro de algumas horas e podemos condená-lo se quisermos. Ele se jogará de uma ponte ou passará a vida atormentado, sem fôlego, preso ao inconsciente desejo de extinção. Sofrerá derrotas, vertigens no calor das horas, pode andar dias inteiros por uma cidade enfeitiçada, que o leva, ao cabo de sua peregrinação, de volta ao início. E nós estaremos com ele, cientes da sua debilidade, friamente comungando de sua derrelição e céticos da sua busca. Porque nós sabemos o que deveria ter sido feito antes do abismo vir visitá-lo, e o olhado com os olhos crespos e o acovardado com suas bestas bizantinas. Os leões da expiação e os corcéis do medo. Então, quando outros o apontam como louco, sabemos que o momento foi perdido. Devemos amar esse homem, porque é obrigado a mergulhar no rio onde apenas flutuam nossas vidas de palafita. Ele emerge gritando Há aqui peixes maiores do que no mar! Há raízes de árvores ancestrais! E nós sorrimos dessas descobertas, pois são revelações da condição humana. Nós, que nunca nos agarramos a uma pedra protuberante, salvos da correnteza, o amamos por ver o que sobrevive no dorso profundo do espírito. É nessa travessia de margens, nesse esforço de braçadas curtas, que não podemos perdê-lo. Haverá um segundo dilúvio para todos, haverá uma queda para cada jangada presa nas traves. Um homem afogado, ou que prende a respiração uma vida inteira, represa em nossas mãos um pouco da água que o encobre.

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Da comunhão

Fomos homens que hesitaram longo tempo debaixo do sol e enquanto a terra ondulava e a gralha borrava o céu, nos misturamos. O calor e a escuridão geraram uma só raça de pardos. Proclamamos: livres, como são livres os frutos das nespereiras. Recuperados de uma longa dinastia de mártires. Nutridos da mística amplidão que assola os claustros. As idades inacabadas. E na velha casa nos reencontramos. Aliançados pelos dedos fundidos em blocos iguais, pela mesma boca cheia de aveia e chumbo, pela mesma insônia que nos prevaricara. Sentimos, no fio de nossas pálpebras, o sangue da lágrima comum que decapitamos. O alarido ao redor da mesa posta; enquanto decifrávamos o jogral de insaciáveis fomes, daqueles de ombros baixos e braços suspensos e daqueles de carnes desbastadas por cinzéis e dos que tramavam almejando vingança e do mais pobre no avesso uniforme, e eu mesmo combalido, esperando que a manhã nos alçasse a todos.

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Das mulheres impossíveis

Ao Everton, meu amigo, pelo seu aniversário.

Senti-me tomado de dilacerante piedade por alguém:
por companheiros meus, enregelados, [...] queimados,
[...] envenenados [...] – seria porque aquelas moças
não iriam pertencer a nenhum de nós? (Soljenitsin)

Pensamos ser nossa tragédia, como um mal que não se difere dos outros senão pela sua constância, não poder ter uma mulher esplêndida. Porém, não falo dessa mulher como salvaguarda de nossos sonhos emolientes, da libido que esfarela nossa razão e esvazia nossos bolsos – não há real pesar entre animais no cio. Tampouco como uma espécie de poder, de bem conquistado e que se destina a cavocar os olhos do outro: do outro cristão, do outro próximo, do desafeto que cultivamos secretamente. Falo da mulher que nos enfeitiça. Que nos nomeia e nos faz caminhar na absoluta solidão do nosso egoísmo. Pensamos, assim, ser trágica a nossa condição de homens tolhidos pelo embaraço, pelas ranhuras nos dentes, pela rasa fonte de ação, pelos gestos condensados em ritos para servir às mínimas exigências da vida, fiéis ao solar de nossas primitivas necessidades, todas elas dotadas de silêncio e supressão; passando finos pelas frestas das portas, retesados pelo sono evocado do chão e do toldo, onívoros se destros, roedores se canhotos; capitães de Açores e albergues, puídos e de pele esgarçada na onda do peito; sem, por isso, jamais ter a chance de ver deitar consigo a mulher endeusada. E, embevecidos, gozar da benesse em suas mãos, das arcanjas metidas sob seus cabelos, da temperatura em suas axilas, do ostensivo esplendor quando se espreguiça, da meia-idade recuperada e que desperdiçamos com fantasias à clef, do mantra contido na meditação dos seios até o som gutural de seus intestinos. Tudo. Dentro e fora. Pois a beleza – extensa ou vertiginosa – possui a mesma natureza daquela fração autofágica – que se dobra e se reúne – do cosmos. Então, vê-se: muitas são as dimensões da aflição do homem.

“Mas Adão, do que se aflige?”
“Pai, artesão precioso, fez de nós a medida entre o pó e os anjos, sem saber jamais o que é fraquejar diante do belo. Tirou de mim esta costela e com ela ergueu a mulher. Nasceram, assim, uma criatura completa e outra mutilada. Oh, herdará o homem a face imperfeita do teu perfeito rosto?”.

Essa mulher impossível despedaça o nome de Deus e sua matrimonial aferição do prazer. Sendo, das tragédias, aquela que o demônio pajeou por filha. Aprisionados que estamos a esses absconsos idílios, às nossas vozes delirantes, à nossa curvatura de lesma, à esta caixa de Pandora. Pensamos ser isso a tragédia que nos esclarece todos os dias… E é.

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“O que distingue o talento novelístico do talento lírico é a aversão em ter que falar de si mesmo” (M. Kundera)

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Da procura

A graça de uma tarde sem vento. Uma tarde moribunda cheia de sinos e luminosos. A rua nunca cessa de falar comigo. Saio para a calçada estreita e procuro meu caminho. A linha que liga à roda do mundo, que justifica essa vadiagem. Mas está um caos desesperador. Um ranger de madeira dizendo: vou quebrar. Automaticamente eu retrocedo e volto. Retrocedo e volto. Deus, que faina é essa a me pedir novos passeios?

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Do passado

Creio piamente no embelezamento das horas descomunais passadas na rede e no fogo. E acredito nas coisas que ficam estáticas em lugares ermos durante anos a fio. Nasce sobre elas uma pelica etéria, e por essa superfície o esquecimento desliza, refazendo os contornos mais grosseiros, delineando o que havia de mais sutil em minhas jornadas. Então meus dedos, pontudos dedos cavocaram a terra para desterrar o crepúsculo e o fim de minhas ânsias, contraíram do esquecimento um mosaico inaudito. Veio das colônias subterrâneas de saúvas, das raízes de cactos, do magnésio inoculado pelas pedras, as linhas que desenharam outras memórias, misturando em minhas unhas imagens de uma louça e de uma olaria. Meu abuso convertido em labor frutífero. Eu vou do chão ao pilar, e do pilar ao céu de andorinhas.

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Dos esconderijos

Cubro meus olhos com mãos devotadas. Surge uma dócil escuridão ao esmagá-los com os dedos. Subjulgo suas pupilas. Oprimo as córneas. E os constranjo pelas magras pápebras que detêm. Fica uma coisa indistinta que não se parece com medo e não se parece com chuva. Parece a fumaça escura que sai dos tentáculos de um polvo acuado. Nesta sombra que vai arrasar as várzeas além dos meus olhos eu corro. Corro nela como quem encontra uma faixa escura para correr sem ser visto. Triunfo à margem de vultos. Onde nada se distingüe, e há vozes de meninos lendo baixo um livro obscuro. Porém, quando as mãos sobre os olhos, sempre acho que alguém vai chegar e vacilo. Ou a dor vai abrir o caminho da moderação, e terá êxito. E a luz virá pletórica. Intumescida de branco. Cegando os meninos e os livros. Virá como um íntimo inimigo, um bicho escaldante que adotei na infância. Então, antes de entrar esse hóspede, abocanho o gomo dos meus polegares. Esse chão onde se plantaram. Finco os dentes com uma mordedura instintiva, a fim de que essa superfície não se extravie. Fico preso a eles como uma animal sequioso, quase extinto, que vai lamber o sal da terra.

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Da mutilação

Lembro do campo esverdeado. Escaldando debaixo da luz solar. O estoque que mantenho destas lembranças vem de uma fonte escassa, da qual me sirvo nos dias difíceis. Essa imensidão é uma essência que me domesticou muito cedo e cuja envergadura fez o branco globo destas córneas. Estou sozinho num fresco devaneio. Vejo o melro voando e a destreza de sua sombra na terra.
Se eu fosse dessa escuridão ligeira, sairia.
E um pé de mirtilo vermelho que entranha o fruto esponjoso.
Se eu fosse dessa excêntrica gênese, sairia.
E toupeiras que se esparramam pelos subsolos.
Onde não há nada, somente a escuridão úmida e ubíqua.
Se eu fosse feito desse caos, sairia.
Agora que me lembro do campo esverdeado, agora que estou com ele em meus sonhos, sei o que aconteceu comigo. Do metal em minha língua e do amor invulgar pela solidão. Eu, que me retraí na minha natureza e fortifiquei o que havia de bruto, até a rudimentar forma dos ossos, só posso ficar estático.

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Da primeira hora do dia

E se a manhã fosse mais clara do que tem sido nestes dias de brumas,
deixava meus olhos revelarem a noite em que descansaram
nessa gama de luzes primitivas,
no leito feito de louçania estreita,
na cauda desses cometas pressurosos.
Mas não havia nada lá.
Senão uma brancura matinal, centrípeta e opaca.

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Das Antoninas

Depois da primeira noite as Antoninas dispuseram seus corpos no Sol do átrio. A luz avançava pelas mil janelas, e destas mil, apenas uma era de tamanho inferior a um homem robusto. Não conversavam enquanto isso, mantinham a casa num velcro-mudo para que se pudesse ouvir o arrastar vagaroso das sombras pela sala. E o rapaz estava largado nos cantos arredondados, entre os cäntaros d’água e chapéus mexicanos. Depois do entardecer elas foram aos quartos e se ocuparam colorindo os rostos, mal a noite caía. Haviam punhados de velas acesas, mais um cheiro de morcela e as vezes pipoca. Lá as Antoninas se pintam nuas. Espelhos afetados pelas cores… uma fala com a outra que fala consigo mesma sobre o amarelo acima do olhos. Não há mesmo uma lógica para o homem. Andando sem seus sapatos, passando pelo jardim de papoulas, espreitando as fendas daquelas peritas mulheres de xenon, a quem o escuro acende. Terminados os rituais, debruçam os panos nas cadeiras e sobre elas, bandejas com o vinho entornado. Molham seus cabelos e depois, na pocilga sobre o metal, sentam-se. Como se o líquido fosse uma senda ligada ao mar. As roupas se inflamam desse cádmo barroco. Restam as luvas brancas da candura e textura do leite. A beleza serve então para preencher o lugar, já a perplexidade do rapaz a manobra para o interior do tórax, guardando o lívido algodão dessa hora. Repicam os sinos nalguma capela, a noite tece um refluxo e o sono aflora. Precisa haver uma saída simples. Ele observa a pequena pena que voa. São os sopros de outono. Não há nada mais estático do que a noite que começa pela espera.

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Dos vinte e cinco anos

É tarde, e eu molemente desfruto de alguma precisão. Estar sobre os seus vinte e cinco anos. Parece como ter vinte e cinco cruzeiros. Parece um valor evocado do passado. Uma moeda pouco corrente. O escambo das minhas raras necessidades pelo vapor de coisas cozidas fora da minha natureza. Dela eu guardo este meu cheiro para a posteridade. Que é o cheiro das coisas que eu como. Carregado na oleosa ondulação das minhas gengivas, na saliva aquecida pela língua obscena, nos baldes das axilas, no pout-pourri de pêlos em meus dedos, o suor claudicado no peito, descendo entorno do umbigo, assolando o solar do meu púbis e caindo na terra humosa de meus sonhos. Este sou eu com vinte e cinco anos. Um bicho conservado pelos seus instintos. Por aquilo que ingere, pela sazonalidade com que se alivia, pelo tempo que dorme e pelas revelações do seu sono, por o mal que domina e por o controle que ambiciona sobre os outros seres, a invocação dos seus ancestrais, a crua formação da sua morte, visto o humor que flutua do rude ao ruidoso, e a oxigenação do seu sangue ante os estertores do sexo. Parece triste. Mas talvez deva ser essa dilação do corpo que contrai uns marimbondos doidos, desses que se ameaçam sem ter por quê. E que se agitam em tiros e se borrifam no ar aos giros e picam sem pressentir que o ferrão ejetado os levará ao fim. Deve ser uma tristeza dessas. Que esgarça a carne e contrai um inseto frio que vai morrer.

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Do vagar extenso

A vida podia ser mais simples, não fosse as minhas calças. Deveria esvaziar seus bolsos e recuperar o tráfego que tinham quando não me conheciam. Eram calças que andavam nas pernas dos meus irmãos e que agora restam no armário como o luxo imóvel de um charuto cubano, pouco volátil e que se apagou. E como os charutos elas queimam devagar. Pelo perambular inadequado que tenho feito. Sobre refúgios dessa espessa cidade. Um bar furibundo, um licoroso copo de grapa, um assombro no fim da noite entre bêbados. Elas queimam, começando pelas canelas. Numa lazeira fria, esgarçando os fios mais leprosos. Contenção em vasculhar nas minhas próprias ancas a célula original. Que deu origem às outras, onde a pulsação dos meus fluídos ainda mantém o suor puro, isento do tabaco socador de fumaça. E do fogo. Fico com as mãos nos bolsos para assegurar que são minhas coxas que repuxam durante o caminho. Na subida da Brigadeiro à Paulista. No cheiro anguloso descendo a Augusta. A concreta obstinação de matar um mal maior com um prazer menor. Vendo as meninas túmidas com seus adereços e pensando na planície e no albatroz voador que eu encontraria nos quartos úmidos das prostitutas. Porém, me falta aquele corpo acostumado aos baques rígidos nos rins e aos seios possessos de um langor febril. Meus pêlos que ainda não entendem o contato das coisas. Eu penso que o prazer e a dor tenebrosos são filhos da minha inexperiência. Esse fórceps violento que dá luz a uma escuridão.

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Das razões as quais não se pode morrer em Medellin

Menino, muito menino. Por longo tempo acreditei que podia mover uma pedra de ametista com o pensamento. Então, uma tarde deixei de crer nisso e meu avô foi embora, de súbito. Não quis fazer homenagens. Esqueceu as poupas de frutas no freezer e a ré engatada no Ford (carro nunca confinado). Só derrubou o cinzeiro e fez minha avó passear pelo sótão. Durante horas, trancada. Dez tias surradas vieram e rezaram a ladainha espirituosa. Um monge passou dias absorto à porta da varanda e disse que meu avô tornaria a nascer em Medellin. Dali em diante pensei em morrer na zonza Medellin. Com um tiro, quem sabe, e da forma mais anódina. Nenhum ato dramático. Uma cena só. De preferência sem que ninguém veja, mas caso veja, que o sangue não se afaste demais do corpo nacarado. Pois sempre causa agitações. Vira um mal arruinador de paralelepípedos. O som ecoa no gotejo do bueiro. Há uma terrível vermelhidão gramofônica. Mas meu avô, desta vez um novo pivete, escutaria meu nome. E soando familiar, viria ver minha íntima idade. Por isso não posso morrer em Medellin. Já basta um convencido de que algo inerte não sai do chão.

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