- A experiência é um outro corpo na cama, disse-lhe. E engoli, ainda gozando do som da minha voz, o pouco que restara no bojo da garrafa. Vi, então, que abrira uma fenda em seus olhos.
- Ah, Deise, estou te enganando.
Claro que, comparado a ela, sou um gorila deitado à relva. Inepto até para o conforme reconhecimento das próprias fezes. Mas, tirando fora meus braços de símio e meu beiço balbuciante, incapaz de proferir qualquer idéia com precisão, sentia-me agora dotado do mais puro lume do espírito. Não apenas isso: um alarmante senso de praticidade tornava-me capaz de dar forma, investigar as causas (e conseqüências), até sondar o habitual trato amoroso de que se gabaram os poetas de antanho. Claro, eu me apoderava dos espólios dos séculos, sendo, nesse exato momento, o produto final de suas histórias que me anunciaram como criatura desbastada pelas vicissitudes da vida.
(Ela me olha, enquanto eu me regalo com o disfarce do romântico tolhido).
No entanto, quem melhor para falar do pisão que lhe esmagou as tripas do que o próprio inseto espremido contra o asfalto? Eu mesmo questiono qualquer sofrimento que não seja verificável no cerne da carne. A única que dá mostras, confio, sem equívoco algum. A tristeza, quando se mistura com a carne forma uma coisa muito patente, da qual eu gosto. Podia ver nos olhos dela essa melancolia, essa melancia de pele tomando corpo, espichando… espirrando pelas pálpebras. O choro lhe escapando e assim você constata (eu constatei), de modo empírico, a grande Tristeza em si. Sequer o desespero dá provas equivalentes, já que costuma trabalhar para a erradicação do ser humano, extinguindo com isso seus sintomas. Mas não era o caso dela. Arregaçara, de súbido, os beiços para parecer solene. Fundiu à cara uma máscara de titânio cuja anatomia revelava um trágico apelo nuclear. Centralizava ali, no pátio da testa, umas rugas amorosas: os sinais do tempo fátuo.
E hoje? O que faremos se se soma ao enorme desconforto (dela), sua desejável impressão de empatia (apenas impressão. Ela se recupera, mas não ressuscita). Esses seus sorrisos sem espírito (os reputo eu à fabril cartilha da educação). Como fará com suas antepassadas, essa mulher? Como lhes pagará a dívida de tantas gerações dedicadas a elevá-la à condição de “realizada”? Elas, que lhe nutriram o corpo com um suor grosso feito leite. Vai esquecê-las? Pode, acaso, se ajoelhar e me dizer: – Me beija? Vai tomar meu membro e dissecá-lo? Ousa tomar meu membro sem a toga passional do sexo? Sem o furor, o que fará ela? Provavelmente, se vê encurralada entre a memória e o ardume. Ela deve guinchar, penso, a qualquer instante. Mas a boca se estica, afunila, esboça uma orquídea e então ouço uma voz que não é sua. Fraca, demente e ainda assim dulcíssima. Ela canta? Esqueceste mesmo os gônios que te pariram, que te forniram, que te suplicaram?! Deixando, ainda assim, e contudo, minha boca seca e avulsa, meu ente solto e mole… Canta?
– Como ousa, tu? Espinhuda! E quase lhe esmurro. – Como é que se regozija, tu, demônio?!