Ao deixar a cidade, com suas luzes insones e as folhas de jornais amanhecidas na praça, e o timbre agudo do leiteiro apitando antes do sono desnatar os olhos, e os farrapos que ansiavam à porta da padaria o pão, o melado e o rubi, peguei a estrada da colina para alcançar, ao fim de meia hora à passo lento, o cume interposto entre a cidade e o horizonte. Sou, agora, uma exilada. Pouco conhecida nas terras circundantes, porém ávida por chegar até elas. Minha mala (deixe-me apresentá-la) trago entuchada de vestidos muito lindos, tintas e batons de Deus me acuda, véus e meias como a pele duma criança, espicaçada por espelhos e pentes. Aqui me detenho com ela. Aqui penso aonde levarei minha preciosa desonra e estas tosadas virilhas de ovelha tresmalhada. Ansiosa pela noite inaugural, quando darei núpcias àqueles que se apresentarem à minha alcova com o bico e o hábito teso do galo forniqueiro. Um após um, outro após este, tomam minha aliança nos dedos. Digo a eles que os amo a todos, entredentes, com fúria. Eles também me amam, e me dão os beiços e me acariciam suavemente qual o comprido lombo de um cavalo e apagam seus cigarros na pia da cozinha. Somos, então, domésticos e felizes. Até novamente a aurora maciça de suas esposas.
Eu as conheço tão bem, que seus egos calejados, suas bocetas como tumbas, seus filhos à tiracolo, me entediam. Vindo juntas, recrutarão aqui e ali suas concidadãs. Vão clamar por mim, apertando as saias entre as pernas, gritando os meus nomes, chamando-me com um amor de irmã. Cada palavra fumegando boca afora na manhã fria. E ainda despenteadas pela noite de dúvida e de medo, forçarão os caixilhos da janela, carimbando o vidro com seus narizes, a espiar lá dentro quem as sucedia. Sobre esta colina eu me prostro e escolho o caminho como uma bruxa que despencasse da lua. Não haveria de ser de outro modo. Nós, forças da natureza tão pródiga, cheias de amor e de vísceras.
2 respostas Até agora ↓
Serena // Novembro 9, 2009 às 10:08 pm |
Mais que uma prece ou uma declaração… uma escolha.
Marcus // Novembro 28, 2009 às 2:53 pm |
Fantasticamente belo. Cada vez melhor na sua forma de escrever, pena (para quem lê) que você tenha visitado aqui menos vezes. Sua escritura também é uma força da natureza. Vísceras.
Parabéns.