Então passei ao lado daquele que era meu inimigo, e que me mataria ao sol nascente. Tinha as mãos como velhas canoas; que entenderam o que haviam entendido as mãos do seu pai anos antes. Do pai trabalhador no porto e que lhe disse um dia ouve filho, percebe na oscilação do mar? É a voz outonal ecoando no inverno, é o gigante barbarizador, é o refugo dos cardumes da superfície; você sabe o que é essa coisa? O nome dela é sagrado. Mas eu vou contar e você a verá passar ofuscante pelos seus olhos: o nome dela é Vingança. Ouve o apelo de suas vaias antigas? Furam nossa boca como um anzol.
Tudo isso aquelas mãos sabiam, pelo trato do espigão e da benzedeira. Pelas ondas arremessadas contra o barco, pela descama do peixe na feira, pela traição declarada nos meus olhos de tainha. Está chegando o momento em que o peixeiro me reconhecerá. Vendo em mim os cansados pescadores que afogaram seu pai, vai perguntar o que perturbou o barco e fez a fuga. Por que deixamos um homem à morte indecente no mar? Encontramos mesmo a baleia comedora de gente ou foi a covardia abundar na rede? Pus sobre aquele barco uma lona preta que não ouso tirar. E ainda que eu esteja firme, ele saberá. Seu olhar vai flutuar no grosso óleo das minhas pupilas e deslizando a mão sobre meu peito, como alguém que acaricia o peixe colossal nunca fisgado, a lâmina pra fora do lenço, ele me matará.
Como pude crer que só eu via a fuga do Sol naquela manhã de Dezembro?