Quando eles colocaram os sapatos, uma luz caiu sobre mim como fogo. Foi o que entendi: nenhum deles voltaria, ou voltariam uma só vez. E se penso neles, é só para lembrar da cor do céu naquela tarde em que sumiram. Meu pai os abraçou, já na fronteira da saudade. Acharam esquisito ele não ter imposto a palavra. [- Seu pai estava louco, filho.] Eles foram por aquela planície, montados sobre as próprias sombras. Então fiquei só e pela primeira vez a noite encheu meu quarto. Nessa noite adoeci dum sonho postiço, imaginando a viagem deles dentro da escuridão. Com os olhos moucos para poder melhor encontrar o silêncio dos seus passos. Contudo, mal o sol raiava, mal o lume varava-me as pálpebras, suas pegadas desapareciam pelo caminho. Aos poucos, meus irmãos haviam tornado-se fantasmas. A claridade do dia os tinha afastado. Levado-os para um distante sítio no mundo e me paralizado nesta casa morta. Com um desespero de quem acorda sem sentir as mesmas pernas, despertei com a boca ruidosa de um dinossauro. E por fim lembrei-me de tê-los visto afundar, com seus corpos diáfanos, no horizonte ainda anoitecido. [ - Pobre de mim!] Eu buscava seus vultos nessa manhã solar, enquanto a luz encontrava-me assombrado e sozinho sobre a terra.
Então percebi que eles tinham feito mesmo um caminho secreto na vastidão. E que o tempo apagaria suas pegadas desta casa. Dei, por isso, seus nomes aos animais. Assim não me esquece a memória, e mantenho o costume de chamá-los. Porque faz tempo desde que foram. O pai fala: eles fugiram. Se fugiram, eu digo, não foi de ti, pai. Não sei, ele diz, e arrota, para disfarçar a mágoa que tem. Para nos livrar da solenidade da ausência. Eu fungo o nariz, quando posso. E as vezes sigo fungando até o estábulo, onde os cavalos, os bois e os porcos fazem o mesmo. Assim eles desaparecem. E eu digo: vou esquecer o que sou.
Semana anterior fui à Rua do Encouraçado e me falaram deles. Disseram que já teriam voltado se fossem voltar. Falaram deles como se desencarnados. – Eles estão em algum lugar, eu disse. E disse também sobre a coragem de partirem sem destino. Mas eles me embatucaram, mofando meu coração com um Silêncio. Retorqui: – Posso buscá-los. Pensei: E mostrar que guardam o cordão do umbigo. Mas um velho pesou a mão em meu ombro: – Nao sinta pena do seu pai. Depois disse: – Seu pai tem a ti. À noitinha voltei ao estábulo onde os animais fungavam.
Lembro o que o pai lhes falou: “Não voltem aqui como estranhos. Nenhum de vocês”. E deu a mão para apertar, em sinal de confiança. Mas o mais velho, antes de sair, por fim: “Descansa, pai. Nunca esqueci do senhor”. Partindo sem remédio outro senão a memória que guardava de nós. E enquanto meu pai adoecia, eles supunham : “Foi a vergonha”. Lembro deles deixando a fronteira, caminhando o bastante para virar atrás só lá longe, onde não se distinguia mais a gente, nem as casas, nem o passado.
Uma madrugada deixei a todos e corri. Corri até me desterrar da barriga do mundo. Passaram-se os meses e eu só caminhava e pensava no pai: praticamente sozinho. Caminhava e o pai: de olhos arregalados, furando o sono. Caminhava e pensava se ele se ajoelhava perto dos porcos e os escutava. Ou se lhes varava o lombo com um facalhão, cheio de náusea. Ou se arrotava, solenemente, sem nunca ter sentido lhe afinar a voz.
Todos se aproximam de nós. Se aproximam de mim, dizendo: você os achou. – Agora descanse, digo a meu pai. Ele sorri de um enigma, no infinito da parede branca. Procurou minha mão. Todas as mãos que encontrou. E as costurou pelos dedos para que elas o esquentassem. Quando morreu eu não estava olhando. Apenas ouvi um estalido e o mais velho estalou mais alto, com a boca aberta feito um balde. “O pai partiu”, eu disse. Um deles cobriu aquele olhar dele, enterrando para sempre a cor dos seus olhos. Os outros saíram. Foram avisar as pessoas que eu também iria. Eles vieram se despedir. Olhavam meu pai e me abraçavam. Lamentavam comigo minha partida. Mas eu amava meus irmãos. Eu os admirava. Eles se libertaram do estábulo, e do fungar constante daqueles animais, antes mesmo de eu saber que até mesmo um bicho chora.
Seus textos são tão intrigantes que é difícil encontrar espaço para deixar alguma palavra a respeito. Por isso, não costumo deixar comentários.
E como todo texto escrito merece ser lido, só queria registrar que passei por aqui e que gostei muito deste texto e de vários outros.