A Diego Fracari, caro amigo.
Sendo de praxe padecermos, a despeito de todos os esforços, pelo jugo da Natureza; desde o fogo que alumiou a idéia de Nero, ao horror sísmico que trepa pelas pontes trêmulas ou o aguaceiro que recorda a falta de um Noé em Atlântida, sou crédulo e, por constantemente me fiar na ironia (como quem crê numa divindade satírica e vingativa), dou fé de que se estes tempos modernos vierem a conhecer o fim do mundo, será pelo trabalho do vento. Algoz ideal para um doente de efemeridades crônicas, capaz de desaparecer sem deixar nenhum indício: Houdini que na cartola faz sumir a enorme besta.
Habituo-me a pensar em sua vinda. Deve surgir como uma brisa a guihotinar chapéus e fazer suicidar-se os papéis da escrivaninha. Contudo, e deixando de argumentar com as cortinas da sala, de debater com os lençóis da cama em fulgurações de fantasmas, ouviremos o tom languoroso de suas vaias assumir o afiado timbre metálico familiar às cornetas e às adagas. Virá, então, cortante. Rasgando nossas roupas, escalpelando nossas casas, serrando o chão pela raíz. E assoviando pelas chaminés das fábricas, pelos dutos do esgoto e pelos túneis, ele transformará todo o concreto em nuvem e todo o aço em ave de arribação. Cessando, entretanto, num átimo, qual um sonâmbulo desperta de si. Ele levará nossos nomes.
Acredito, contudo, que momentos antes do fim, para livrar-nos da demência de João ou para salvar-nos da obsolescência do espírito, tentaremos explicar o ocaso:
Se dirá “O vento vem das montanhas”, mas atestarão os alpinistas “Ali o ar mal existe”.
Se dirá “O vento vem do pólos”, mas as bússolas não os encontrarão.
Se dirá também “Trata-se de um furacão impetuoso”, mas ninguém achará seu olho.
E se dirá “É o sopro furioso de Deus”, mas do céu cairão cometas como fósseis de anjos. E nada mais fará sentido.
Enquanto a mim, acostumado a me desesperar, o que farei? Escrevo (a fim de lembrar-me quando for hora): “Pedir a um pássaro que me carregue”. Porém hesito. Não poderei realmente fazê-lo, entendo. Isso destruiria o propósito de todas as pipas que um dia tive e que, ironia, o vento carregou sem mim.
Do sentido do vento
Estou eu então a falar das adagas e dos pássaros que com asas cortantes tolhem o próprio vôo, caindo ao chão; cambaleantes, se estreitam com os agentes da travessia terrestre – cito inevitavelmente aquele albatroz de Baudelaire entre os marinheiros -, se estreitam para tentar suturar a ferida mais íntima de seu ser: o vôo que encerram. Dão-lhe de fumar, fumam, escurraçam-no, saltita pé-pé, desengonçado membro de um grupo no qual colidiu. O pássaro carrega nas costas todas as massas de ar, e o vento é seu confidente e traidor. Trouxe-o em vôo. Inspira-o em liberdade. Aterrisa seu destino nas velas de uma embarcação.
Então estou eu a falar das adagas. Como seria a pipa que não tem linha? Pássaro-papel que é fruto do próprio corte. Sem linha, sem caminho. Iríamos admirá-lo do mesmo modo que admiramos os zepelins? Se fosse possível compreendê-lo, o pássaro, em sua grandiosa pequenez. O volume do pássaro está no vento. O vento que nos sopra do espaço de todos os papéis. A linha talvez seja uma armadilha de vento, não de pássaro. Engendremos a linha, o vento. A curva. Onde a faz?
As adagas. Carrego no bolso adagas. Não quero empalar o pássaro. Não quero cortar a linha. Quero enfiar a adaga no seio do vento. E ver como, sem sangue, entidade etérea, ele continua, no seu espetáculo de cume.